sábado, 20 de abril de 2013

Alguns Sintomas

Quando chegamos em São Paulo, eu ainda dividia apartamento com dois amigos, então, quando minha mãe chegou, ela ficou um pouco deslocada. É óbvio que ficaria, se até a gatinha dela ficou. Arisca como a gata, um tanto brava e sempre reclamando, ela demorou pra entender esse novo lugar. Até porque também foi meio confuso, já que precisou dormir no meu quarto no início e se sentia tímida com as outras pessoas. Mas aos poucos ela foi relaxando, e, dentro de algumas semanas, um dos amigos já se mudou e instalei minha mãe no quarto vago, o que já foi muito melhor pra ela. E em breve o outro também saiu e ficamos só a gente, e ela enfim ficou à vontade. Uma vez que só podemos contar conosco mesmo, eu achei ótimo!!! No início ela fazia algumas coisas normalmente, como seu café da manhã (embora ainda faça isso até hoje - ainda bem), lavar a louça, tomar banho, cuidar das minhas plantas, lavar uma roupinha ou outra no tanque, até ir no mercado sozinha. 

A nossa comunicação era difícil. Eu achava que era por causa dela ter ficado muito tempo sozinha, sem ninguém pra conversar, teria perdido o jeito, se é que se pode dizer assim. Falava pouco e quando falava, falava tão baixinho que parecia não ter forças para falar. Ma aos poucos isso foi melhorando e logo já berrava comigo, quando ficava brava por algum motivo. Mas, aos poucos ela foi perdendo o interesse pelas coisas e a destreza para executar essas tarefas. E o pior, começou a fugir. Sempre com o pensamento em Londrina, ela tentava ir na polícia para denunciar os vizinhos, ou algum parente, ou até eu mesma, por ter esvaziado a casa dela e trazido ela pra São Paulo. Isso aconteceu umas três ou quatro vezes. Ficava desesperada! Mas sempre tive a ajuda de estranhos, ou policiais, que percebiam que ela esta confusa e a traziam pra casa, ou então alguém me ligava e eu buscava ela onde estivesse - EU ESCONDI O MEU ENDEREÇO E TELEFONE DENTRO DO DOCUMENTO DELA, isso foi muito importante.Teve um dia que liguei pra um amigo, o Ivan, que mora perto de mim e ficamos os dois procurando ela pelas ruas, mas  alguém havia encontrado ela e a trouxe pra casa, graças ao endereço escondido a dentro do RG. Foi mesmo muito boa essa idéia. No começo proibi a saída dela sozinha de casa para os porteiros do prédio, alguns ajudavam de bom grado, outros faziam a linha "não é problema meu" - foda-se eles! Mas foi passando o tempo e ela parou de fazer isso. Ao deixar de fazer as tarefas simples, ela começou a ficar deprimida, então busquei ajuda. Mas aos poucos os sintomas da doença foram agravando. Tinha dias que ela procurava meu tio Paulo pela casa, mas, como se ele ainda fosse um bebê de colo, e eu fazia ela lembrar que ele já havia crescido, que morava em Londrina e tudo o mais. Um dia ela me chamou: "Moça, você viu um menininho correndo por aí?", também era o Tio Paulo que ela procurava, e, nem me reconheceu. 

Ela ri muito. Tem crises de riso. Ao comer, engasga com facilidade. Não mastiga muito bem os alimentos, engole-os com muita voracidade. Come muito, o apetite é bem diferente do que ela tinha antes. Tem uma certa timidez com as pessoas, mas derivado (eu acredito) da dificuldade em se comunicar, em pronunciar as palavras, formar frases inteiras e desenvolver uma linha de raciocínio. Minha mãe, principalmente quando está agitada, ela fica repetindo sílabas e a palavra que ela quer dizer não sai. Dessa forma: Eu pergunto, Quer alguma coisa, mãe? E quando ela vai responder fica repetindo "lelelelelele..." e a palavra LEITE, não sai de jeito nenhum e ela começa a dar risada.
Acho até bom que ela se diverte com as coisas, pois seria pior se ela ficasse ainda mais ranzinza, sofreria mais. Ela está com dificuldade de caminhar. A marcha tornou-se lenta e, segundo ela, a perna direita ficou "dura". Eu chego a pensar que o tombo que ela tomou em Londrina, no qual fraturou a bacia, tenha contribuido para isso. Tanto que numa queda, já aqui em SP, ela deu uma piorada, ficou alguns meses de repouso na cama, utilizando o andador e mesmo que tenha melhorado, nunca voltou a andar normalmente. Ela perdeu bastante em noção de espaço. Percebo isso, pois sempre que ela vai sentar na cama dela, no sofá, ou voltear algum móvel ou alguma coisa que seja, ela não tem noção de distância entre ela e o obstáculo, entre ela e o sofá ou a cama, e se joga pra trás pra sentar e acaba sentando no lugar errado ou sofre alguma queda. 

Começou apresentar, a pouco tempo, dificuldade em se vestir. As vezes coloca duas calcinhas e não põe a saia, ou bermuda, ou calça. Coloca a blusa do lado contrário. Perdeu um pouco da inibição também, com gente ou sem gente em casa, quando ela quer ir no banheiro ou tomar banho, já vai tirando a roupa pelo caminho, o que não deixo porque ela pode perder o equilibrio e cair. Aliás, é uma coisa que está indo pra cucuia, o equilíbrio. Mamãe desenvolveu o costume de pisar com a borda de fora do pé direito no chão e manter o dedão do pé inclinado pra cima, e não consigo que ela pise normalmente nem por reza braba! Explico que os pés precisam estar plantados no chão para que tenhamos equilíbrio, mas ela não consegue de jeito nenhum. Quanto ao banho ela não toma mais sozinha, mas se eu for falando o que é pra ela fazer, ela vai se lavando seguindo o que eu digo. Mas tenho que ficar sempre ao lado dela, por conta do desequilíbrio, pois pode se acidentar novamente. 

Suas necessidades fisiológicas a traem. Não consegue chegar a tempo ao banheiro e por esse motivo começou a utilizar fraldas, pelo menos pra dormir. E as vezes durante o dia, quando precisamos sair, ir ao médico e etc. Meu medo também, é ela fazer xixi no chão e escorregar no chão molhado, como já vi acontecer. Então tomo cuidado com isso, fico sempre atrás dela, limpando o chão na hora que acontece.

Ela tem pensamentos desconexos, liga um coisa com outra que às vezes não faz sentido nenhum, mas às vezes até faz. Tem um padrão de lógica diferente. E, com isso, desenvolveu algumas paranóias, como se alguém roubou uma toalha dela que ela afirma ter comprado na loja há pouco tempo, mas essa toalha não existe e acusava uma amiga de ter feito isso, queria até chamar a polícia pra ela. Por vezes fia lúcida como de costume. Nunca totalmente, pois ela sempre foi meio perturbadinha da cabeça. Mas dentro da sua normalidade. Conversa numa boa com as pessoas, mas a timidez atrapalha um pouco.
Está com medo do escuro e medo de ficar sozinha. Começou a gostar de coisas que nunca gostou e por outro lado, deixou péssimos hábitos. Parou de fumar, o que foi ótimo. Mas nunca achei que ela pararia. Hoje ela não sabe mais lavar louça, mas lava suas calcinhas no tanque, de vez em quando. Cuida das minhas plantinhas, que hoje já são todas dela, as plantas estão cada dia mais lindas e vistosas. Põe a água pra ferver pra fazer o café e coa tudo direitinho (faz um café delicioso, aliás), mas tenho medo porque às vezes esquece o gás ligado. Tem dificuldades em fazer escolhas, se eu pergunto: - Mãe, quer presunto ou peito de peru?, ela responde sempre a palavra que ouvir primeiro. E, nesse sentido, ela costuma sempre repetir o que ouve, às vezes, por um bom tempo, até que começa a rir. E responde não a quase todas as perguntas. Sempre Não. Não. Não. Mas, querendo dizer sim. E novamente ri, quando isso acontece. 

Mas o que mais me preocupa é o fato de que ela gosta de ficar muito deitada. Talvez as confusões que ela apresenta, venha do fato de ficar dormindo e acordando muito. Variando entre um sono e outro. Mas ainda não sei se é isso mesmo.
Saio passear com ela, de vez em quando, quando ela quer, e eu posso. As vezes se ela não quer eu insisto e faço até uma chantagem pra ela mudar de idéia. Mas infelizmente, sei que o que ela precisa eu não posso dar ainda. Por falta de grana, tempo e disposição. Pois, sendo sozinha, acumulo diversas funções, de trabalho, pessoais, da casa, da vida, da mãe... enfim, estou longe de proporcionar as coisas que ela precisa e merece, mas vamos lá, nem tudo está perdido. 
Aos poucos vou escrevendo mais sobre os sintomas que eu perceber, mas por enquanto o que posso dizer está escrito acima. 


23/04/2013

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